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Sábado, Agosto 16, 2008
Você viu o eclipse da lua?
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Sexta-feira, Agosto 15, 2008
Querida Clarice,
Espero que você não se zangue, mas tiveram a idéia de publicar as cartas enviadas para Tânia e Elisa na época do seu "exílio" como esposa de diplomata.
Digo isso porque já li a carta onde você se irrita com Maury por ele ter visto como literária uma das cartas a ele enviadas. Foi muito enfático da sua parte dizer que gostaria de ter uma vida – uma vida separada da literatura.
O livro foi intitulado de Minhas Queridas e o comprei numa viagem que fiz a Diamantina num lugar muito agradável onde se respirava cultura.
Por isso peço minha cara, não fique chateada, pois lendo as suas cartas posso garantir que você teve uma vida separada da literatura, mesmo que em certos momentos seja nítido o seu traço literato.
Sabe, sem querer ser pretensiosa, descobri que temos características muito parecidas, isso me deixa tão contente, pois sempre a admirei muito como escritora e agora percebo como a sua personalidade sempre esteve presente em seus escritos e, talvez por isso, me identificasse tanto cada vez que lia algo seu.
Hoje a comunicação se dá de forma mais rápida, temos o celular que podemos levar para qualquer lugar, mas na maioria das vezes me sinto como você que se afligia com a demora das cartas e das respostas das suas irmãs.
Sou bastante ansiosa, me atenho aos detalhes e procuro explicar tudo tão direitinho para que as pessoas consigam me agradar, mas na maioria das vezes elas (assim como Elisa) têm seus afazeres e acabam por não dar tanta importância a coisas que dou.
Assim como você eu também sofro com a espera e, no meu caso, ligo mesmo sem ter respostas às perguntas que havia feito antes.
Em alguns momentos do seu livro tenho vontade de ter vivido aquela época, pois gostaria muito de ter enviado cartas a você, pois sua felicidade era tão grande em ter notícias, fossem de quem fosse.
Será que você me acharia chata, enfadonha como pareciam ser as pessoas com as quais convivia?
Nunca pensei em escrever uma carta a alguém falecido, mas sinto que dizendo essas coisas a você posso tocar aqueles que me cercam, pois tenho me sentido sozinha, vazia e um simples telefonema contando sobre o clima me faria tão feliz...
Só posso dizer que ler suas cartas me tocam muito, me fazem sentir mais perto de você, como se ainda existisse nesse momento, pena não poder ter uma resposta sua.
Clarice, mais uma vez peço, não fique triste pela publicação das cartas, elas apenas foram encadernadas, mas permanecem espontâneas, sem cunho literário, mostram a vida – simplesmente a sua vida minha querida.
Gostaria que esta carta pudesse ser convencional e eu pudesse perguntar sobre a sua saúde, o seu trabalho, mas sei que será em vão...
Se houver mesmo algo além desse mundo espero que você possa receber esse gesto, que ele possa acarinhar sua alma...
Caso a vida termine aqui mesmo desejo apenas que esse texto diga mais do que quer dizer, toque aqueles que ainda vivem para a importância de demonstrar o amor...
Desejo que meu telefone toque...
Saudades,
Letícia
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Sexta-feira, Agosto 01, 2008
Eu só quero saber em qual rua minha vida vai enconstar na tua...
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Sábado, Julho 26, 2008
O que você me pede eu não posso fazer
Assim você me perde, eu perco você
Como um barco perde o rumo
Como uma árvore no outono perde a cor
O que você não pode eu não vou te pedir
O que você não quer eu não quero insistir(...)
A melhor coisa dos últimos tempos pode se transformar no pior pesadelo, basta deixar o egoísmo estragar tudo...
Incrível a capacidade de tornar o bom em ruim, em fazer o leve virar peso.
Será que um dia aprenderei a viver como Sabina?
Tenho arroubos de maturidade que se perdem no vazio da minha alma mimada, não consigo manter a estabilidade, preciso de tempo, preciso dar tempo ao tempo, deixar as coisas fluírem com naturalidade.
Estou cansada de desconstruir momentos simples, incrivelmente belos e felizes...
Estranha capacidade de complicar tudo, as coisas já não são fáceis, pra que complicar mais?
Não quero perder o alimento da minha felicidade, aquilo que tem trazido alegria ao meu coração por não ter paciência, por agir como se o mundo girasse em torno do meu umbigo...
Acho que ando meio cansada de mim...
Será que ainda me vê como algo bom?!
(...) Ontem à noite eu conheci uma guria
Já era tarde, era quase dia
Era o princípio
Num precipício era o meu corpo que caia
Ontem a noite, a noite tava fria
Tudo queimava, nada aquecia
Ela apareceu, parecia tão sozinha
Parecia que era minha aquela solidão
Ontem à noite eu conheci uma guria
Que eu já conhecia de outros carnavais
Com outras fantasias
Ela apareceu, parecia tão sozinha
Parecia que era minha aquela solidão
No início era um precipício
Teu corpo que caia
Depois virou um vício
Foi tão difícil acordar no outro dia
Ela apareceu, parecia tão sozinha
Parecia que era minha aquela solidão
piano bar - engenheiros
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Sábado, Julho 19, 2008
Sobre Brokeback Moutain
As visões do passado podem nos paralisar diante da felicidade. O medo de sofrer, de passar pela mesma experiência, pode nos congelar e nos prender ao que temos.
Ainda assim ele não impede que aquilo que mais tememos aconteça...
Deve ser frustrante pensar que a felicidade não foi vivida e mesmo assim o amor se perdeu.
Não quero ser arrancada brutalmente sem ter a chance de ser feliz...
Só não quero ser uma lembrança, uma camisa pendura no armário...
Vou ter minha cabana perto do Rio São Francisco, irei em busca da felicidade, sem ter medo de me arriscar.
Agora entendo muito coisa...
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Segunda-feira, Julho 14, 2008
Admirar o belo gera sensações inenarráveis, mas saber como idéia primária aconteceu pode nos levar a conclusões espetaculares sobre a nossa própria vida, sobre a forma como queremos conduzi-la.
Tenho admiração pelos clássicos, mas geralmente não me aprofundo nos seus significados, não tenho curiosidade em saber como tudo começou me contento com a felicidade do gostar.
Ao ler a Insustentável Leveza do Ser de Milan Kundera descobri que uma das mais belas sinfonias de Beethoven surgiu de um episódio um tanto inusitado, ele transformou um momento cômico, leve em algo extremamente pesado, mas esplendidamente belo.
Segundo Parmênides é a mudança do positivo em negativo. Milan Kundera, nesse capítulo do livro, chamou minha atenção para o inverso, a transformação do negativo em positivo que também remonta ao pensamento de Parmênides, mas que nos causa grande estranheza.
Para Milan Kundera sair do leve para o pesado é algo com que nos acostumamos, quando as coisas adquirem um tom solene vemos com naturalidade, mas o inverso causa desconforto, pois não sabemos mais pensar como Parmênides.
Quando se vai do pesado ao leve não passamos despercebidos, somos logo notados, todos os olhares se viram e estranham a atitude, pensar como Parmênides, passar do negativo para o positivo, não é fácil nos dias de hoje.
A Insustentável Leveza do Ser transformou a minha vida, por mais difícil que seja meu desejo é pensar como Parmênides, enxergar com naturalidade tanto a passagem do pesado ao leve quanto do leve ao pesado.
A leveza do ser é insustentável porque durante toda a vida vivemos momentos que passam do leve ao pesado, do pesado ao leve, mas geralmente encaramos as situações pesadas como se fossem mais importantes.
Tomas e Tereza viveram assim, eles deram ao peso uma importância tamanha e talvez por isso tenham sofrido tanto, mas mesmo eles tiveram a chance de experimentar o sabor da leveza.
Sabina encarava com naturalidade as mudanças e aproveitava como ninguém os episódios de leveza, sua vida era mais leve que pesada e por isso ela me parecia mais feliz.
No mundo ocidental a morte é vista de forma extremamente solene, pesada, nos vestimos de preto, da ausência de luz...
Tomas e Tereza não fugiram a regra no momento da morte, foram esmagados pelo caminhão que ele dirigia, mas Milan Kundera, sabiamente, nos relata esse episódio muito antes do final do livro, permitindo assim que Tomas e Tereza vivam nas últimas páginas do livro um momento onde o peso se transforma em pura leveza.
Disseram-me que o peso está no não ser, mas na verdade o peso existe sempre, mesmo quando somos a leveza é insustentável porque nos esquecemos de viver conforme o pensamento de Parmênides.
Os orientais lidam com a morte como algo natural, vestem-se de branco, transformam em leve um episódio extremante pesado e dolorido, sabem viver conforme o pensamento de Parmênides.
Desejo aprender viver assim, quero ser como Sabina, e no dia da minha morte peço, não me joguem a sete paus do chão, não me cubram com o peso da terra, quero a leveza das cinzas jogadas no meu amado Rio São Francisco convivendo por algum tempo com os crocodilos que ali habitam até me perder na imensidão do mar.
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